domingo, 21 de março de 2010

36 Quai Des Orfèvres



Há quem associe os filmes policiais só aos barulhos de armas e manchas de sangue, visualizem mentalmente o confronto entre bandidos e policiais e associam de forma previsível os finais com mocinhas salvas. Mas existe uma interface muito maior em relação à esse gênero cinematográfico e a sensibilidade humana, e é exatemente isto que vemos no filme de Olivier Marchal.

A princípio o foco do filme é o combate à um grupo de assaltantes que estão aterrorizando Paris. As cenas são fortes, marcadas por vandalismo, sangue e gritos em um ritmo equilibrado entre agilidade e imagens bem definidas, que dão ação e clareza ao filme. Porém, o combate torna-se interno a partir do momento que a diretoria da polícia é indicada à um cargo público e deve passar o posto de Chefe de Polícia para um dos seus auxiliares mais diretos: Léo Vrinks (Daniel Auteuil), chefe da BRI (Brigade de recherche et d’intervention ou Esquadrão de Pesquisa e Intervenção), ou Denis Klein (Gérard Depardieu), chefe da BRB (Brigade de Répression du Banditisme ou Esquadrão de Crime Organizado). Ambos entram na disputa, mas com focos totalmente diferentes,enquanto Vrinks almeja tal cargo para ter mais liberdade e colocar em prática suas táticas pouco ortodoxas, Klein quer o cargo pelo poder. A partir de então o filme fica restritamente envolvido ao sentimento de competição, raiva e inveja.

O longa é rico em detalhes visuais, um exemplo é a cena em que Vrinks e Klein chegam ambos em suas casas, com as marcas do seu dia espelhadas em seu corpo, e vão tomar banho. Enquanto Klein fica sozinho naquele momento, carregado pelo seu dia, mostrando-se uma pessoa individualista, Vrinks recebe a companhia de sua mulher, que o ajuda e tirar as manchas vermelhas do corpo, trocam carícias e acabam fazendo amor. É fato que certas atitudes são correspondentes as suas ações diárias, aliás você colhe o que você planta.

É sobre essa individualidade e egoísmo de Klein que vou continuar focando o texto, aliás penso que a cena mais intrigante do longa começa a partir de agora. Enquanto todos as duas equipes, BRI e BRB, trabalham juntas, Vrinks faz comandos de trabalho em equipe pensando em uma estratégia lógica para tentar dissolver aquela determinada situação, porém Klein desobedece qualquer acordo que seja, pega uma arma e no meio da operação toma atitude que coloca a vida da policial Ève Verhagen(Catherine Marchal) em risco enquanto o policial Eddy Valence (Daniel Duval) leva um tiro e morre. Fica perceptível, a partir dessa cena, as ilimitáveis atitudes que Klein poderia tomar para conseguir o que queria, sem se importar quem ele prejudicaria, aliás algo muito maior ultrapassava seus próprios limites: o poder.

Dentre todo esse conflito, infelizmente Vrinks entra em uma enrascada: marca de encontrar um criminoso, que é uma fonte, e ao chegar no local presencia o bandido executando um crime e ambos fogem. Diante dessa situação temos que refletir até que ponto devemos levar a ética a diante, sendo que devemos manter fontes em sigilo, mas não devemos esconder nenhuma verdade que encoberta um crime. Pois bem, desse crime provocado pela "fonte-criminosa" do Vrinks, se salvou uma mulher, que estava prestes a ser expulsa do país por imigração, porém Klein "mecheu os pauzinhos", conseguiu que ela continuasse no país e a utilizou como testemunha para denunciar Léo Vrinks, e então foi preso. Sendo assim, Denis Klein consegue seu tão almejado cargo, mas será que isso era tudo? A resposta é: não.
Grande parte dos filmes europeus tem essa questão de trazer um mistério que não é apontado durante um filme, mas quando aparece fica perceptível a sua veracidade de acordo com o contexto. Quando falamos de poder dentro desse filme, não podemos limitar este somente à questão de conseguir o cargo ou não, talvez este fosse o grande salto que Klein conseguiu, pois de tal forma ele seria não somente uma autoridade dentro do seu trabalho, mas como também perante toda a sociedade. Conseguir prender Léo Vrinks foi o primeiro passo para conseguir o cargo de Chefe policial, ou talvez fosse o segundo, aliás ao decorrer do filme percebemos que não é só o egoísmo que corrói a vida de Klein, mas também a inveja de Léo por ele ter uma família e uma esposa que o ame.

Durante o sofrimento de estar longe do seu marido, Camille Vrinks (Valeria Golino) tentar encontrar uma maneira de entregar o bandido que colocou seu esposo na cadeia, Hugo Silien (Roschdy Zem) marcando com ele um encontro dentro do carro na estrada e deixando a policia a par de tudo. Porem os planos foram por água a baixo, Klein não conduz nenhum esquema policial para não por em risco a vida de todos, e age com perseguição fazendo com que Camille e Silien capotem. Será que esse acidente doeu mais em Klein ou Vrinks? Penso que para Denis a princípio tomar essa atitude doeu sim, aliás ele invejava tanto o relacionamento, quanto a própria esposa de Léo, mas de pensar que este não teria mais por perto quem ele tanto ama, seria sua maior satisfação.



Talvez você pense agora: Vrinks sai da cadeia e vai se vingar de Klein dando um tiro na cabeça dele. Pensou nisso mesmo? Então você quase acertou, aliás o filme não é nem um pouco previsível assim. Seriam 10 anos de cadeia, se não tivesse bom comportamento dentro da prisão, mas com 8 anos Vrinks estava livre. Procurou sua amiga e sua filha, e descobriu a verdadeira razão da morte de sua esposa. Pegar uma arma e matar Klein seria o caminho mais fácil para voltar à cadeia. Léo ficou sabendo de duas coisas que foi ponto fuminante para uma idéia escapatória: uma festa que estava sendo promovida pelo próprio Klein e os comparsas de Silien, que estavam atrás de quem matou o seu chefe da gangue.

No fim das contas o plano foi: ...não vou contar, nada melhor do que asistir o filme !

Talvez o final do filme não seja o momento mais esperado do filme, para ser bem sincero, mas o desenvolvimento em si meche com todas as estruturas sentimentais de uma pessoa, despertando medo, raiva e inveja, por exemplo. Pela própria vivencia do diretor, o qual dedicou 10 anos de sua vida à Força Policial Francesa, é que conseguiu levar todo o sentimento do real para as telas e transmiti-lo de volta para os telespectadores.

Veja o trailer:
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