segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Entre o céu e a terra

Na fila das compras fico a segurar minha caixa de chocolate, os produtos de limpesa e a ração do Ben, meu Golden Retriever. Mechendo em meus cachos dispersamente avisto no começo da fila um antigo amigo meu do colégio, o Carlos, faziamos diversos planos para o futuro, lembro até que no começo,quando cada um tomou seu rumo na universidade - eu estudando jornalismo e ele medicina- ainda nos batiamos pelos cantos da cidade e nos comprimentavamos, mas hoje ele me olha e simplismente vê aquele garoto que um dia foi seu colega do colégio.
Ainda na fila, em minha frente, vejo uma mulher com traços afrodescendentes segurando uma criança loira de olhos claros em seu colo, e de longe um homem branco acena para eles e ela diz para a criança: ´´Dá tchau para o papai, vai.``, atrás de mim escuto duas senhoras cochichando:´´Deve ser a empregada da família, nunca que um homem branco desse jeito casaria com uma negrinha``.
Parado ali já me aproximando do final da fila avisto uma criança bem gordinha segurando seu pacote de biscoito recheado de morango e uma mulher segurando sua mão, e de longe escuto murmuros: ´´Aquela alí é a separada, olha como ela cuida do filho, só alimenta a criança com porcarias, isso é que dá criar filho sem pai.``
Chegando a hora de passar as compras o homem que estava no caixa trabalhando registrou todos os produtos, no momento que entreguei meu cartão para pagar as compras ele me informou que não estava passando nenhum cartão. Olhando para o lado avisto um senhor impaciente, olhando para o relógio, e do nada começa a gritar:´´Seu bando de incompetente, eu estou aqui faz meia hora e ninguem concertou esse caixa para passar o cartão, e esse viado ai trabalhando na maior lerdesa.``, ele me olha esperando uma afirmação, mas viro meu rosto e olho para o ´´caixa``, ele olha para mim e eu enchergava em seus olhos a vergonha por tal humilhação, ele sai dali e desaparece, quase pedindo para desaparecer do mundo.
Chegando em casa com as compras coloco-as na cozinha, vou até meu jardim e me deito olhando para o céu e sua imensidão. Mechendo na terra com meu dedo indicador começo a cavar um buraco e fico a pensar na imensa profundidade que deve existir alí. Fico a pensar no dia de hoje e nas pessoas que avistei,imaginando o que se passa na cabeça de cada um. Diante da imensidão de problemas que vivemos pessoas ainda se importam com o que cada um se tornou, ao invés de se preocuparem com o que tem se tornado. Será que não dá para cada um viver no mesmo mundo cuidando de si e de quem precisa, aliás fico a me perguntar: estamos todos entre o céu e a terra, será que não podemos apenas viver ?

Um comentário:

  1. Nossa... eu realmente espero que isso tenha sido mais uma crônica não baseada em fatos reais, pois me entristece saber que isso ainda acontece e com tamanha intensidade.
    Viver entre o céu e a terra não é fácil, mas há sempre quem dificulte ainda mais.
    Repulsa para atitudes como essas.

    Abração

    ResponderExcluir