segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Por favor, não jogue-o no lixo


Encostei-me em uma parede cheia de desenhos; olhei para um lado, olhei para o outro e não via meu irmão. Chorei, chorei como se tivesse perdido-o, mas ele só não havia ido para o colégio naquele dia porque estava com febre, mas mesmo assim chorava. Tinha cinco anos quando esse fato aconteceu, recordo-me como se tivesse sido ontem.Risadas, gritos de desavenças, choros de um abraço materializavam-se naquele dia em que eu percebi que um irmão; mais que isso, um cúmplice, não havia me acompanhado em mais um dia de escola. Meu nome é Sanmy, o do meu irmão é Suedney, eu tenho 18 anos, ele tem 15, juntos somos uma história e em nossos corações de irmãos levamos a amizade, fraternidade e companheirismo na esperança que isso nunca se acabe.

Quando pequeno reuníamos mamãe, titia - a irmã mais nova da minha mãe - e brincávamos compulsivamente a ponto de as horas passarem e eu ter conseguido a atenção delas somente para mim. Pensava eu que seria o único filho homem da casa, o último herdeiro de meus pais com todos os privilégios possíveis e impossíveis, não bastavam os brinquedos, as roupas e os sapatos, o que eu queria mesmo era o carinho e atenção de todos, tenho uma irmã mais velha chamada Shirley, tudo bem que eu já tinha uma irmã, mas eu era o homenzinho que tanto meu pai esperava, afinal, assim é a nossa cultura: viril é aquele que produz um varão para dar continuidade a sua descendência. Foi surpresa para mim, não me recordo da minha mãe grávida, só sei que no dia 18 de Fevereiro o inesperado acontece: vem ao mundo aquele que estava ameçando meu reinado que construí ao longo dos três anos, já estava sentindo que toda minha atenção passava a ter outro alvo, principalmente a da minha tia. Minha mãe chegou em casa com meu irmão, ele estava chorando muito, com ciúmes, falei: ”Joga esse menino no lixo mãe”.Naquele instante todos olharam para mim, riam loucamente e seus olhares diziam-me: ”Como ele é bonitinho”, “Que piada mais engraçadinha”, mas eu não estava muito disposto a aceitar aquele novo integrante. O tempo foi passando, e tive que começar a dividir todos os meus brinquedos, o pior: dividir os meus bonecos dos Cavaleiros do Zodíaco, para mim isso seria o fim, mas meu pai foi explicando que eu tinha que dividir; querendo ou não, tive que aceitar. Essa fase de divisão foi bem difícil, enquanto eu gostava de tudo no seu lugar, meu irmão não, olhava para ele com um ar de interrogação e ficava sem entender porque ele queria comer meus brinquedos, eu não tinha muita paciência e arrancava o brinquedo da sua boca, logo ele chorava e eu recebia a bronca. Senti-me por um tempo rejeitado, achava que eu estava sendo um problema, mas sabia que a culpa não era minha. Não sei como, mas acabei percebendo que meu irmão não sabia brincar, estava começando a aprender o mundo aqui fora e não sabia como funcionava o processo para cada brinquedo, eu estava aqui para ensiná-lo.

O tempo foi passando, ele já não tinha meses, e sim anos. Quando ele tinha dois anos de idade as coisas pareciam que estavam ficando mais fáceis, ele estava mais esperto, já conversava, mas gaguejava um pouco, porém eu finalmente conseguia entender o que ele falava. Estava ficando feliz, percebi que tinha um irmãozinho, e ele não berrava mais, ele brincava comigo, cantava comigo, fazíamos complô contra minha irmã e minha tia, entre outras coisas que crianças adoram fazer. Foi construindo-se uma amizade, uma cumplicidade até porque presenciávamos os constantes desentendimentos entre meu pai e meus tios. Com três anos de idade meu irmão foi pela primeira vez para o colégio, sentia-me tão orgulhoso e lembro-me como se tivesse sido ontem: por ele ser mais novo entrou na turma Maternalzinho I, cada um quando chegava guardava o material e a lancheira em um armário, quando davam dez e meia as crianças pegavam um tapete e se deitavam para tirar um cochilo até que seus pais chegassem para apanhá-los. Foi no dia que meu irmão estava com febre que eu me senti um inútil, como podia eu, o irmão homem mais velho deixá-lo em casa e ir para o colégio nesse momento tão difícil que ele estava passando, na hora da saída olhei para a sala dele e vi seus coleguinhas dormindo, e seu tapete estava vazio. Encostei-me onde tinha os desenhos do pato Donald e do Mickey, chorei tanto, senti tanta falta, logo uma funcionária da escola me perguntou o porquê de eu estar chorando, eu respondi: “Meu irmão está com febre e eu não posso fazer nada”, ela me explicou que minha mãe estava cuidando dele, dando os devidos remédios que o médico aconselhou.

Fomos crescendo, sempre com a diferença de três anos de idade, mas não parecia. Eu não parava de ensinar as coisas para ele, ele não se cansava de aprender as coisas comigo; eu criava, ele inovava; se eu choro, ele chora; quando eu sorria, ele também sorria. Recordo que no colegial, quando fiquei em recuperação pela primeira vez fui dizendo logo para ele: ”Isso você não deve aprender comigo, estude”, até hoje, graças a Deus ele não aprendeu isso. Fico vendo as fotos que ele fica tirando sozinho, como todo mundo faz, e é impressionante como ele faz as mesmas poses que eu faço. Não é falta de personalidade, é admiração; ele sente por mim e eu sinto por ele; tenho maior orgulho do mundo de tê-lo como irmão, e hoje vivo me perguntando: “Como pude mandar minha mãe jogar meu irmão no lixo?”.

3 comentários:

  1. o nome do seu blog eh tao bunito.
    mas acho que eh muito parecido pro meu gosto

    ResponderExcluir
  2. essa foto não parece que vcs tem tres anos de diferença MEEESMo aeahhah
    e eu tb tinha brinquedo do cavaleiros dos zodíacos. era demais huauha

    ResponderExcluir
  3. texto perfeito =]

    a relação com meu irmão é bem diferente da sua com o seu.

    nós também temos 3 anos de diferença (quase 4), mas somos opostos rs
    durante um tempo até fazíamos as coisas juntos, mas depois ele me deixou de lado.

    Percebi isso num dia que meus pais resolveram ir na praia e ele falou que não ia. Aí cheguei lá e tudo era sem graça.
    Aí meus pais voltaram em casa e trouxeram ele, mas ele não quis brincar comigo.

    Lembro bastante disso.

    Parabéns pelo texto =]

    ResponderExcluir